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Croácia: a campeã que infelizmente merecemos

Donald Trump tem uma camisa da seleção da Croácia com seu nome estampado. Camisa dez. Ganhou ontem da presidenta Kolind Garbar-KItarovic. No vestiário da seleção, nas arquibancadas da Rússia e nas ruas de Zagreb, capital croata, canta-se a Čavoglave, canção que glorifica o Ustase, partido de extrema-direita croata que se juntou aos nazistas durante a segunda guerra mundial e espalhou o terror pelo país matando milhares de sérvios, judeus e ciganos.
A Croácia seria a campeã perfeita para ajudar a historiadores a descrever o tempo em que hoje vivemos. Dirão os livros de história: “A segunda metade do século 21 viu uma onda conservadora varrer o planeta. A nação mais poderosa do planeta elegeu um candidato de direita, e até no futebol vimos a Croácia conquistar a hegemonia.”
“Croácia campeã do mundo” é equivalente a dizer “Trump presidente dos EUA” ou “Inglaterra fora da União Européia”.
Todas as frases acima, por mais surreais que pareçam, são reais. Menos a primeira. Até domingo, Croácia não é campeã da Copa da Rússia.
Os comentaristas esportivos apenas na Copa descobriram que há uma nova ordem mundial.
Mas, para cada nova ordem, há sempre uma contrapartida, uma contracultura.
Em campo, no domingo, do outro lado, estará o time da França, a primeira a dizer “basta” à exdrúxula, no sentido “já não havíamos experimentado isso antes? Qual será a próxima onda? Voltarmos a abandonar moedas e retornarmos aos sistema de trocas, um camelo por um saco de arroz etc”?
Alertada pela eleição de Trump e do Brexit, a França foi a única a levar a sério a maluquice conservadora. Uniu-se, mesmo a contragosto, em torno do nome de Macron, para não correr o risco de uma Le Pen no poder.
Na seleção Croata, nunca veremos, em hipótese alguma, tantos negros quanto vemos na seleção francesa. Talvez nunca vejamos negros. Como já dito aqui, futebol é o espelho político no qual uma nação reflete-se inteira, por achar que “se trata apenas de um torneio de um esporte”.
Como diz a letra cantada nas aquibancadas:
– “Ninguém entrará em Čavoglave enquanto estivermos vivos!”
Nunca veremos um Mbappé defendendo a Croácia.
Mas, se for o caso de insistir na simpatia pelos “azarões”, Alfred Hitchcock ajuda, dá um motivo. O diretor britânico elegeu o pôr-do-sol em Zadar, Croácia, o mais bonito do mundo. Quem esteve lá concorda.
E então tem-se o campeão que hoje representa melhor o mundo.
O que nos deixa hipnotizados por seu pôr-do-sol enquanto o avanço de uma longa noite se aproxima.
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